Paula Unger
(1954 - 2022)
Paula Fani Sneider Unger ou Paula Unger (1954-2022), como ficou conhecida artisticamente, nasceu em São Paulo, em 28 de julho de 1954. Cursou Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, com licenciatura para magistério para 1o e 2o graus. Em 1979, optou por trabalhar com cerâmica.
Manteve um atelier em São Paulo, no Espaço Integrado de Arte, onde além da cerâmica, deu espaço a outras modalidades artísticas. Nele expôs e vendeu suas peças. Além de ministrar cursos de cerâmica de alta temperatura e de sustentabilidade aplicada ao ambiente de trabalho.
Fez pesquisas sobre texturas naturais, como rochas, cascas de árvores, pedras, como as do Grand Canyon, montanhas do deserto do Neguev, Cordilheira dos Andes, Serra da Mantiqueira, entre outras.
Descobriu um universo simples e sinuoso, o qual círculos e espirais e formas quadriculadas, e hexagonais, brincam num diálogo constante, remetendo a um caminho sempre inovador, lúdico e criativo. Criou e produziu cerâmica utilitária, decorativa e esculturas.
Sua filosofia de vida teve como base de equilíbrio a família, amigos, o trabalho e o convívio constante com a natureza. Protetora dos animais e apaixonada pelas árvores e vegetação que habitam o planeta Terra, inspirou-se inúmeras vezes nestas formas divinas, e no fractais criados pela natureza.
Em 2022, Paula nos deixou mas sua obra segue viva conosco.
Obras
Objetos do dia-a-dia com designs e personalidades únicas, muitos inspirados em outras culturas, sem deixar a funcionalidade de lado. Além de decorarem os ambientes, eles são muito práticos e ótimos para a saúde, porque foram produzidos com esmaltes adequados para o contato com os alimentos.
Utilitários
Percurso Paula Unger
Em meio a círculos e espirais...
Difícil ignorar nos objetos criados pela artista plástica Paula Unger o jogo paradoxal de imagens que oscilam entre a persistência e a mudança, o uno e o múltiplo, apontando para uma espécie de círculo que se encerra e se abre para o infinito. Ao primeiro olhar, as espirais marcam suas peças, torneadas em argila queimada em alta temperatura, de diferentes tamanhos, formas e proporções. Tais espirais se configuram em baixo ou alto relevo, delineadas tanto por cores vibrantes e neutras, quanto pelo tom fosco da textura da argila e o brilhante dos esmaltes, responsáveis por contrastes que acentuam o movimento contínuo do “ir e vir” de linhas gráficas, sugestivas de algo infindável. Determinar onde começa ou termina cada gráfico torna-se função do espectador, convidado a participar do trabalho da ceramista.
Nesse sentido, outro dado assinala a duplicidade mencionada: a finalidade de cada peça. À guisa de exemplo, esferas vazadas, prontas a fazer parte da natureza, acolhendo pássaros, transformam-se num conjunto de móbiles desencadeante da visão das diversas faces da criação. Da perspectiva inversa, um conjunto de cinco peças, evocativas de pratos superpostos e desenhados com linhas espiraladas, pode insinuar uma “unidade”, um “totem” estilizado pelo traço determinante de quem dialoga com outras culturas. Em linhas gerais, a linguagem de Paula Unger, ao focar as formas espirais como uma de suas principais constantes, sublinha a presença do circular e do infinito, da estabilidade e do movimento, despertando no espectador sensações de algo cotidiano que,
repentinamente, se rompe para introduzir diferenças, ou seja, certo efeito estético das peças desarticula o conhecido, sem negar a tradição das inscrições na argila. Ao contrário, acaba nela se inserindo. Basta citar, dentre várias, as relações entre a cosmogonia da tribo “dogon” e o aparecimento da cerâmica. Em uma de suas versões, o deus criador faz o sol em barro, contornado por uma espiral em cobre; ou seja, Paula resgata o “antigo” e o
recompõe, desencadeando o que todos buscam: a prazerosa visão do mesmo reelaborado sob outro olhar.
Cleusa Rios P. Passos
Professora Titular da FFLCH da Universidade de São Paulo